
- Um novo estudo mostra que áreas privadas restauradas na Mata Atlântica brasileira alcançaram até 20% mais cobertura florestal do que áreas privadas vizinhas não restauradas.
- Com 75% da Mata Atlântica em mãos privadas e um déficit de 6,2 milhões de hectares (15,3 milhões de acres) de vegetação nativa, segundo a lei, os proprietários de terras privadas são fundamentais para a recuperação.
- Na última década, os ganhos e perdas florestais na Mata Atlântica praticamente estagnaram; porém, no ano passado, metade de todo o desmatamento atingiu florestas maduras com mais de 40 anos, ameaçando a biodiversidade e os estoques de carbono.
De acordo com um estudo recém-publicado , a restauração da Mata Atlântica no Brasil está obtendo sucesso em terras privadas. Os pesquisadores avaliaram o Pacto de Restauração da Mata Atlântica, uma iniciativa colaborativa lançada em 2009 para acelerar o reflorestamento, e constataram um aumento de 20% na cobertura vegetal em terras privadas estudadas entre 2000 e 2018, em comparação com áreas sem intervenção.
O pacto atua em 17 estados brasileiros e reúne governos, ONGs, empresas e proprietários de terras para identificar áreas prioritárias para restauração, apoiar a implementação e monitorar os resultados ambientais, sociais e econômicos. O objetivo final é restaurar 15 milhões de hectares (37 milhões de acres) de floresta até 2050 .
“Os proprietários de terras relatam que, após o início do plantio para restauração, nascentes voltaram a funcionar, córregos se encheram e a terra esfriou”, afirma a bióloga Ludmila Pugliese de Siqueira, coautora do novo estudo e diretora do programa de restauração de paisagens e florestas da Conservation International Brasil. “Para eles, o resultado é muito tangível — algo que afeta diretamente seu cotidiano.”
O estudo examinou 158.000 hectares (cerca de 390.000 acres) de terra, metade restaurada e o restante não restaurado. No total, constatou-se um aumento líquido na cobertura vegetal de 4.600 hectares (cerca de 11.400 acres) na forma de floresta restaurada, uma área aproximadamente 80% do tamanho de Manhattan ou 13,5 vezes o tamanho do Central Park.
Ainda assim, restaurar a floresta em terras privadas na Mata Atlântica continua sendo um grande desafio. Cerca de 75% do bioma é propriedade privada e quase 90% de sua vegetação original, cerca de 110 milhões de hectares (272 milhões de acres), foi perdida para a agricultura, pastagens, exploração madeireira, mineração e expansão urbana. Estima-se que um terço da população da América do Sul viva dentro dos limites originais da floresta.
O Pacto de Restauração da Mata Atlântica prioriza a proteção de reservas legais, a porção de propriedade privada que os proprietários são obrigados a preservar, e áreas de preservação permanente, zonas dentro de terras privadas e públicas que salvaguardam fontes de água e ecossistemas frágeis, e que os proprietários também são obrigados a manter de acordo com o Código Florestal brasileiro. O pacto também se concentra em áreas adjacentes a unidades de conservação, áreas protegidas que abrigam espécies da fauna endêmicas ou ameaçadas de extinção e são menos adequadas para a agricultura.

“Este estudo torna-se especialmente relevante no contexto da COP30 [a cúpula climática da ONU de 2025], quando precisamos reforçar a restauração como uma das soluções baseadas na natureza mais importantes — uma das ferramentas-chave para enfrentar a crise climática e da biodiversidade”, afirma Siqueira, que atuou como coordenador nacional do pacto até 2023.
A COP30 foi realizada no mês passado em Belém, na Amazônia brasileira, reunindo líderes de quase todas as nações, juntamente com cientistas, povos indígenas e a sociedade civil, para negociar ações contra a crise climática. Grande parte das discussões se concentrou no papel das florestas .
Perdas e ganhos
Vastas áreas de plantações de soja e cana-de-açúcar são comuns na Mata Atlântica; o bioma concentra um terço de toda a produção agrícola do Brasil. Segundo o MapBiomas , uma iniciativa colaborativa que utiliza dados de satélite para monitorar as mudanças no uso da terra em todo o Brasil, a agricultura quase dobrou no ecossistema entre 1985 e 2024.
Apesar dos esforços contínuos de reflorestamento, os dados do MapBiomas mostram que, nos últimos 10 anos, os ganhos e perdas florestais permaneceram praticamente estagnados na Mata Atlântica. De fato, metade de todo o desmatamento registrado em 2024 ocorreu em florestas maduras com mais de 40 anos, ameaçando a biodiversidade e os estoques de carbono.
“[Muitas pessoas] veem a floresta como uma perda de terra produtiva”, diz Siqueira. “Por isso, é importante destacar que ela pode gerar retornos — seja por meio da água, da polinização, da sombra para o gado ou até mesmo pelo reconhecimento que advém da participação no pacto.”
Realizado em seis estados brasileiros, o novo estudo examinou parcelas de 2 hectares (5 acres) que passaram por reflorestamento e as comparou com áreas vizinhas que não foram reflorestadas. Essa abordagem permitiu aos pesquisadores determinar quanto da regeneração florestal poderia ser diretamente atribuída às ações do programa.
Uma segunda comparação analisou as áreas apoiadas pelo programa antes da restauração (de 2000 a 2009) e depois (de 2010 a 2018). Os resultados mostram que as áreas restauradas recuperaram até 20% mais cobertura florestal do que teriam recuperado sem o auxílio do programa, numa área de 4.600 hectares.
Os autores observam que essa estimativa provavelmente é conservadora, visto que as imagens de satélite têm limitações bem conhecidas. Muitas vezes, elas não conseguem detectar os estágios iniciais do reflorestamento, por exemplo, e podem ser afetadas pela cobertura de nuvens.

A conta é alta.
“Acredito que o maior obstáculo para a restauração florestal em larga escala seja o seu custo”, afirma Jennifer Alix-García, coautora do estudo e professora de economia aplicada na Universidade Estadual do Oregon, nos EUA.

Entrevistas com proprietários de terras, ONGs, representantes governamentais e consultores incluídos no estudo revelam diversos fatores que influenciam as decisões de restauração, desde os altos custos iniciais e a necessidade de assistência técnica até o financiamento e as obrigações legais para a manutenção da vegetação nativa.
Embora a restauração enfrente desafios significativos, com custos que podem chegar a US$ 8.000 por hectare (cerca de US$ 3.200 por acre), o pacto busca atenuar essas barreiras por meio de uma rede descentralizada e promovendo técnicas mais acessíveis. Os custos podem cair para cerca de US$ 1.000/hectare (US$ 400/acre) quando se utiliza a regeneração natural assistida.
A regeneração natural assistida é uma técnica que se baseia na capacidade de recuperação da própria floresta, mas com auxílio humano estratégico. Em vez de plantar árvores, os proprietários de terras permitem que a vegetação local cresça naturalmente, removendo barreiras ao seu retorno — como o controle de espécies invasoras, a proibição da entrada de animais na área e o enriquecimento do local com espécies nativas quando necessário. Essa abordagem é mais barata, mais rápida e, muitas vezes, mais eficaz quando ainda existem remanescentes de floresta nativa e fontes de sementes.
Outras estratégias, como priorizar a restauração em áreas mais afastadas dos centros urbanos, também podem ajudar a tornar os investimentos mais eficazes.
“Temos observado uma série de mecanismos que podem trazer retorno econômico à restauração, como sistemas agroflorestais, pagamentos por serviços ambientais ou mesmo o mercado de carbono, que vem se aquecendo”, afirma Alex Fernando Mendes, secretário executivo do Pacto de Restauração da Mata Atlântica e coautor do estudo. “São situações que mobilizam e atraem cada vez mais atores e proprietários de terras para esse contexto.”

Por que as terras privadas importam mais do que nunca
“O Brasil está há muito tempo na vanguarda da política ambiental na América Latina porque reconhece tanto os custos reais para os agricultores quanto os importantes benefícios que as florestas oferecem a todos”, afirma Alix-García.
O Código Florestal Brasileiro , a lei nacional que regulamenta a proteção da vegetação nativa, exige que os proprietários rurais mantenham parte de suas propriedades sob vegetação nativa, tanto na reserva legal quanto em áreas de proteção permanente. Na prática, porém, o cumprimento é muito baixo: estima-se que 6,2 milhões de hectares de vegetação nativa que deveriam ser preservados em terras privadas na Mata Atlântica simplesmente não existem.
Segundo o estudo, os estados brasileiros que aplicam rigorosamente as leis ambientais obtêm resultados de restauração mais eficazes e respaldados por acordos. É o caso de estados como Bahia e Paraná, que impõem multas mais elevadas por hectare de floresta por habitante rural.
A Mata Atlântica desempenha um papel crucial na salvaguarda da biodiversidade brasileira, abrigando uma concentração excepcional de espécies endêmicas especialmente vulneráveis à perda de habitat. Muitas aves, mamíferos e, principalmente, anfíbios locais dependem de grandes áreas florestais contínuas, mas hoje persistem em fragmentos dispersos e manchas isoladas. Essa riqueza biológica contrasta fortemente com o baixo nível de proteção formal do bioma: menos de 10% da Mata Atlântica está coberta por áreas protegidas, como unidades de conservação.
“Embora as unidades de conservação sejam muito importantes devido à concentração de biodiversidade que protegem, muitas áreas-chave estão em terrenos privados”, afirma Alexandre Uezu, coordenador de pesquisa do Instituto de Pesquisa Ecológica (IPÊ), instituição membro do pacto. “Além disso, sabemos que unidades isoladas não são suficientes para garantir a sobrevivência a longo prazo das espécies mais sensíveis e vulneráveis, o que torna a restauração em propriedades privadas essencial para a salvaguarda da biodiversidade, bem como de muitos serviços ecossistêmicos.”
Grande parte da regeneração da Mata Atlântica no Brasil ocorre em propriedades privadas pertencentes a agricultores. Dados da SOS Mata Atlântica , uma ONG brasileira dedicada à conservação da Mata Atlântica, mostram que os proprietários de terras privadas representam 45% de toda a área restaurada entre 1993 e 2002.
Além de proporcionar benefícios ambientais, a restauração também desempenha um papel econômico significativo , especialmente em áreas rurais, gerando renda para cooperativas, associações de produtores, redes de sementes e organizações locais. Em média, um emprego é criado para cada 2,4 hectares restaurados, o que destaca o potencial dessa atividade para expandir as oportunidades de emprego em todo o bioma.
“A restauração não é mais apenas um sonho ou uma promessa”, diz Siqueira. “Temos dados, temos números, temos provas concretas de que ela acontece, inclusive em terras privadas. A restauração já é realidade e acontece à maneira brasileira — com criatividade, parceria e persistência.”
Imagem do banner: Jaguatirica no Parque Estadual Encontro das Águas, Brasil. Imagem de Giles Laurent via Wikimedia Commons ( CC BY-SA 4.0 ).
Citações:
Toto, R., Alix-García, J., Sims, KRE, Coutinho, B., Muñoz Brenes, C., Pugliese, L., & Mendes, AF (2025). Evidências sobre a ampliação da restauração florestal a partir do Pacto de Restauração da Mata Atlântica no Brasil. Nature Communications , 16 (1), 4715. doi: 10.1038/s41467-025-59194-3
Jenkins, CN, Alves, MAS, Uezu, A., & Vale, MM (2015). Padrões de diversidade e proteção de vertebrados no Brasil. PLOS ONE , 10 (12), e0145064. doi: 10.1371/journal.pone.0145064
Brancalion, PHS, Siqueira, LP, Amazonas, NT, Rizek, MB, Mendes, AF, Santiami, EL, … Chaves, RB (2022). Potencial de criação de empregos na restauração de ecossistemas no Brasil. Pessoas e Natureza , 4 (6), 1426-1434. doi: 10.1002/pan3.10370

