
- A venda de créditos de carbono provenientes da restauração florestal está decolando no Brasil, mas o setor ainda precisa lidar com a desconfiança, a complexidade da restauração de ecossistemas e a natureza de longo prazo dos projetos.
- Fundada em 2021, a empresa brasileira re.green restaura florestas comercialmente através da venda de créditos de carbono e possui projetos que abrangem 34.000 hectares (84.000 acres) na Amazônia e na Mata Atlântica.
- A empresa tem como objetivo restaurar 1 milhão de hectares (2,5 milhões de acres) de florestas tropicais em todo o Brasil. Seu trabalho até o momento foi reconhecido com o Prêmio EarthShot em 2025.
- Além de restaurar ecossistemas para vender créditos de carbono de alta integridade, a empresa também trabalha com a comunidade e produz dados e conhecimento sobre restauração florestal.
Em Eunápolis, no sul do estado da Bahia, o desmatamento da Mata Atlântica para a agricultura começou há séculos, deixando um mosaico de pastagens para gado, monoculturas e terras degradadas. Entre 11% e 25% da vegetação nativa do Brasil encontra-se em processo de degradação relacionado ao desmatamento, enquanto 22% de suas pastagens estão severamente degradadas. Para reverter essa situação, esforços estão em andamento em todo o país para recuperar ecossistemas e seus serviços, uma ajuda vital na mitigação das mudanças climáticas.
Desde 2022, a cerca de 30 quilômetros (19 milhas) da cidade de Eunápolis, esforços de restauração estão em andamento na fazenda Ouro Verde para trazer de volta espécies da Mata Atlântica em centenas de hectares de pastagens improdutivas para gado. Atualmente, 344 hectares (850 acres) de floresta foram restaurados.
“Em dois anos, você passou de uma pastagem degradada, extremamente danificada, com solo arenoso, para uma floresta com mais de 60 espécies, árvores com mais de 4 metros de altura. Parece uma floresta”, disse Miguel Moraes, diretor de projetos da re.green , a empresa brasileira por trás do projeto Ouro Verde.
Fundada em 2021, a re.green tem como objetivo restaurar 1 milhão de hectares (2,5 milhões de acres) de florestas tropicais na Amazônia e na Mata Atlântica, vendendo créditos de carbono e gerando benefícios que vão além da captura de carbono. “Gostaríamos de ser líderes, mostrando que existem diferentes modelos de monetização de florestas e ecossistemas naturais que não geram benefícios apenas para o clima, mas também para as pessoas e a biodiversidade”, disse Moraes à Mongabay em uma entrevista em vídeo.

A restauração comercial — em que empresas restauram ecossistemas e depois vendem créditos de carbono para financiar ainda mais seus trabalhos de restauração e gerar lucro — está ganhando força no Brasil . Se feita de forma eficaz, essa prática pode complementar os esforços do setor público e de ONGs para recuperar terras degradadas pela atividade humana, segundo diversos especialistas consultados pela Mongabay.
O governo brasileiro tem como meta restaurar 12 milhões de hectares (cerca de 30 milhões de acres) de florestas até 2030, enquanto a extensão das áreas degradadas que necessitam de restauração em terras privadas é estimada em 21 milhões de hectares (52 milhões de acres), uma área ligeiramente menor que o Reino Unido. Mas a recuperação de uma floresta é lenta e custosa, repleta de obstáculos legais e logísticos, especialmente na Amazônia, onde há incerteza quanto à posse da terra, por exemplo.
“O governo sozinho não vai atingir essa meta, daí a necessidade de empresas do setor privado”, disse Ana Cristina Moeri, presidente do Instituto Ekos Brasil, uma organização sem fins lucrativos que trabalha com a proteção ambiental nos setores público e privado, em uma entrevista em vídeo.
O modelo de restauração comercial
O modelo de negócios da Re.green baseia-se principalmente na venda de créditos de carbono provenientes de terras privadas que comprou ou arrendou para reflorestamento. A empresa também planeja vender produtos de madeira sustentável dessas áreas. A médio prazo, a Re.green pretende restaurar cerca de 250.000 hectares (617.800 acres) até 2030, afirmou Moraes.
Até o momento, a empresa afirma estar trabalhando em diversos projetos que abrangem 34.000 hectares (84.000 acres) nos estados da Bahia, Maranhão, Pará, Mato Grosso e Rio de Janeiro, dos quais 20.000 hectares (49.400 acres) estão em processo ativo de restauração. Seu trabalho foi reconhecido em novembro passado, quando a empresa ganhou o Prêmio Earthshot por seus esforços de restauração e proteção da natureza.
A Re.green começa por identificar as áreas com maior potencial de restauração através de inteligência artificial, drones, imagens de satélite e dados ecológicos e financeiros. Utilizando modelos computacionais e dados científicos, calcula a rentabilidade do projeto com base na captura de carbono projetada e elabora um plano de restauração. Em seguida, inicia-se o processo de restauração.

“Restauração florestal significa restaurar todos os serviços ecossistêmicos que existiam em uma determinada área”, disse Paulo Amaral, pesquisador sênior da organização sem fins lucrativos de conservação Imazon. Isso inclui produção de água, regulação climática, captura de carbono e fornecimento de corredores ecológicos para a biodiversidade.
Segundo Amaral, restaurar eficazmente uma floresta próspera exige, em primeiro lugar, analisar e preparar o solo; selecionar as espécies e o método de plantio; e, em seguida, monitorar não apenas a sobrevivência inicial das plantas, mas também sua resiliência a ameaças como mudanças climáticas, incêndios e espécies ou pragas invasoras.
Para alcançar esse objetivo, Moraes explicou que a re.green primeiro interage com as comunidades locais e planeja a restauração com base nas características da área, como topografia e solo. A organização planta espécies nativas por meio de diversos métodos, incluindo o plantio de mudas, a semeadura, a regeneração natural assistida ou uma combinação desses, acrescentou. E monitora o processo.
O processo evoluiu por meio de tentativas e erros. A experiência em Ouro Verde, na Bahia, levou a empresa a reduzir em mais da metade o número de espécies inicialmente plantadas e a se concentrar em árvores de crescimento rápido, como a canafistula ( Peltophorum dubium ) e a cecropia ( Cecropia ), que criam as condições para o retorno de espécies e fauna mais frágeis. “Queremos trabalhar com a natureza, para que a própria natureza traga de volta essa diversidade”, disse Moraes.

Créditos de reflorestamento
Especialistas como Moeri afirmam que o reflorestamento para emissão de créditos de carbono funciona no Brasil, onde há um excedente de terras degradadas que podem atender à crescente demanda por créditos de carbono de alta integridade — créditos que apresentam remoção de carbono real e verificável, além de benefícios sociais e para a biodiversidade.
Créditos de carbono absorvidos pela restauração de um ecossistema surgiram como uma alternativa mais confiável aos créditos vendidos por emissões evitadas pela não-desflorestação — os chamados projetos REDD, que visam reduzir as emissões provenientes do desmatamento e da degradação florestal.
“Há uma crescente importância e investimento em projetos de reflorestamento, com o Brasil emergindo como um dos principais fornecedores desses créditos de carbono”, disse Moeri.
O Brasil aprovou uma legislação que cria um mercado de carbono regulamentado em dezembro de 2024, e o governo espera que ela esteja pronta para adoção até o final deste ano . Mas, por enquanto, os créditos são vendidos no mercado voluntário, que tem sido abalado por uma série de escândalos, desde empresas que lucram com terras públicas sem consultar ou informar as comunidades tradicionais, até a venda de créditos “sujos” ligados à indústria de mineração.
A Re.green planeja emitir seus primeiros créditos de carbono certificados no primeiro semestre de 2026. Seus projetos aguardam certificação da Verra, o maior registro voluntário de carbono do mundo, embora a maioria já tenha sido vendida antecipadamente, disse Moraes. Segundo a Re.green, essa é uma prática padrão.

Britaldo Soares Filho, pesquisador associado do Centro de Tecnologia e Inovação da Universidade Federal de Minas Gerais, preocupa-se, no entanto, com a falta de garantias. “O problema com a restauração é que vendem os créditos antecipadamente”, disse ele ao Mongabay. “O crédito pode ser vendido, revendido. Quem vai se responsabilizar pela restauração [a longo prazo]?”
Em meio a questionamentos mais amplos sobre a real eficácia dos projetos de carbono, a certificadora escolhida pela re.green, a Verra, também enfrentou problemas de credibilidade. Em 2023, uma investigação do The Guardian lançou dúvidas sobre 90% dos créditos da certificadora. Em 2025, a Verra suspendeu três projetos no Brasil após uma investigação policial sobre seus vínculos com grilagem de terras e extração ilegal de madeira.
Embora cético em relação aos créditos de carbono , Soares reconhece que a captura de carbono em projetos de restauração é mais mensurável do que o REDD. Moraes destacou esse fato e o uso de tecnologias como sensores remotos como garantias da credibilidade da empresa.
Nos últimos 18 meses, a re.green firmou acordos de restauração florestal e compensação de carbono com empresas como Microsoft, Nestlé, a operadora de telecomunicações brasileira Vivo e a Agro Penido, uma empresa agrícola.
De acordo com Moraes, isso reflete o crescente interesse em créditos de restauração entre diferentes setores corporativos, com muitos dispostos a pagar um valor adicional por carbono de alta integridade e valorizando os benefícios colaterais dos projetos além da captura de carbono.
Embora os créditos REDD geralmente sejam vendidos por US$ 3 a US$ 20 por tonelada, aqueles provenientes de projetos de restauração podem ser avaliados em mais de US$ 70 por tonelada, disse Moraes.
O alto preço dos créditos é necessário para viabilizar esses projetos, segundo Luís Fernandes Guedes Pinto, diretor executivo da ONG SOS Mata Atlântica. “Plantar florestas para fins comerciais, para ser remunerado por meio de carbono… é uma fórmula viável, excelente, mas não funciona em lugar nenhum”, disse ele ao Mongabay.
“A terra precisa ser barata e o carbono precisa ser caro. A Re.green consegue oferecer créditos caros porque tem excelência na produção florestal”, disse Pinto, referindo-se ao processo de restauração da empresa, baseado na ciência, e ao fato de contar com cientistas renomados, como Bernardo Strassburg e Pedro Brancalion, entre seus fundadores.
Além da captura de carbono
As comunidades locais desempenham um papel fundamental para garantir o sucesso da restauração de terras. “Os atores locais precisam ter acesso à informação, à ciência e à infraestrutura para que participem efetivamente do processo de restauração”, afirmou Amaral, da Imazon.
No estado amazônico do Maranhão, a re.green ajudou moradores locais próximos ao seu projeto Entre Rios, de 18.000 hectares (45.000 acres), a desenvolver um negócio de coleta de sementes. “A empresa abraçou nossa causa”, disse Maria José Cruz Silva, moradora da comunidade vizinha de Vera Cruz, que teve a ideia de trabalhar com sementes, resgatando uma prática tradicional que havia se perdido. Hoje, ela é presidente da Associação Agroflorestal de Produtores e Extrativistas de Vera Cruz e Arredores (SEMEAR). Os membros receberam treinamento e agora coletam e vendem sementes nativas para viveiros locais, bem como para a re.green.
Em outros locais, a re.green emprega moradores locais para a fase de plantio de suas atividades e incentiva as empresas contratadas para serviços de monitoramento a fazerem o mesmo.
Para Moraes, o envolvimento da comunidade é uma parte essencial do seu trabalho a longo prazo. “Se não conseguirmos restabelecer esta relação entre as comunidades e a floresta, e a perceção do valor da floresta, esta floresta provavelmente não durará tanto quanto poderia”, afirmou.
A longevidade de uma floresta restaurada é um sinal de seu sucesso, mas também apresenta desafios, desde a obtenção de financiamento até a disponibilidade de insumos essenciais, afirmou Roberta del Giudice, diretora de florestas e políticas florestais da BVRio, uma ONG que trabalha com soluções de mercado para problemas socioambientais.

“É um investimento de longo prazo, por isso é preciso ter uma estrutura financeira que o suporte”, disse ela.
Moraes admitiu que isso representa um desafio. “Temos uma concentração de custos elevados no início do projeto e a receita distribuída ao longo do processo”, afirmou.
Um gargalo iminente é o fornecimento de sementes, à medida que os projetos de reflorestamento se multiplicam. Em 2021, a re.green adquiriu a Bioflora , um dos maiores viveiros de espécies nativas do Brasil, fundado em 1998, por meio do qual contribui para o desenvolvimento de outros viveiros em todo o país e para a produção de informações científicas sobre espécies nativas e produção de sementes.
Isso faz parte de seus esforços mais amplos para produzir dados para a restauração florestal, uma área na qual Amaral disse que a re.green pode desempenhar um papel importante. “Temos uma enorme carência de informações sobre o tema da restauração de florestas nativas, particularmente na Amazônia”, afirmou.
Com o crescimento da restauração florestal, Del Giudice também gostaria de ver esses projetos comerciais olharem além dos créditos de carbono.
“Precisamos criar novos mercados para esse tipo de proposta. Precisamos considerar que essas [florestas] oferecem serviços ambientais que vão além do carbono e da madeira, então precisamos explorar melhor o que essas florestas podem fazer em pé”, disse ela.
Imagem de destaque: Projeto Entre Rios da Re.green na Amazônia, no estado do Maranhão. Imagem cedida pela Re.green.
Citação:
West, T. A., Alford Jones, K., Delacote, P., Fearnside, P. M., Filewod, B., Groom, B., … Putz, F. E. (2025). Desmistificando as narrativas romantizadas sobre créditos de carbono da conservação florestal voluntária. Global Change Biology , 31 (10). doi: 10.1111/gcb.70527
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