Com o desmatamento e a perda de habitat reduzindo as populações de animais selvagens, os mosquitos estão cada vez mais recorrendo a outra fonte de alimento: os humanos. Essa é a conclusão de um novo estudo realizado na Mata Atlântica brasileira, um hotspot global de biodiversidade com menos de um terço de sua área original remanescente.
Os mosquitos da Mata Atlântica “têm uma clara preferência por se alimentar de sangue humano”, afirmou em comunicado o autor sênior Jerónimo Alencar, biólogo do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores coletaram 1.714 mosquitos em duas reservas diferentes da Mata Atlântica, no estado do Rio de Janeiro. Apenas as fêmeas picam; elas precisam de sangue para desenvolver seus ovos, então os pesquisadores se concentraram nas 145 fêmeas ingurgitadas coletadas. Dessas, apenas 24 continham sangue que pôde ser analisado e comparado a vertebrados conhecidos por meio de análise de DNA.

Três quartos das amostras, 18 das 24, revelaram que os mosquitos se alimentaram de sangue humano. As outras fontes de sangue vieram de seis aves, um anfíbio, um canídeo e um rato. Vários mosquitos se alimentaram de mais de uma espécie hospedeira, incluindo combinações de humano/anfíbio e humano/ave, aumentando ainda mais as preocupações com a disseminação de doenças.
Os pesquisadores acreditam que os mosquitos estão demonstrando preferência por sangue humano porque o desmatamento e a perda de habitat reduziram o número de animais selvagens disponíveis para a alimentação dos mosquitos.
“Quando a população de vertebrados diminui, migrando para outros habitats, os mosquitos… partem em busca de novas fontes de sangue”, disse Sérgio Lisboa Machado, coautor do estudo e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em um e-mail para o Mongabay. Nesse caso, a nova fonte de sangue é humana.
A Mata Atlântica já cobriu aproximadamente 1,3 milhão de quilômetros quadrados (502.000 milhas quadradas) ao longo da costa leste do Brasil, estendendo-se até a Argentina; uma área maior que o Peru. Hoje, restam menos de 30% da floresta, grande parte dela bastante fragmentada e cercada por assentamentos humanos, agricultura e estradas.

À medida que o desmatamento e a perda de habitat impulsionam os mosquitos em direção a hospedeiros humanos, cientistas alertam que o risco de doenças pode aumentar. Esses insetos são responsáveis por aproximadamente um milhão de mortes humanas anualmente em todo o mundo, causadas por doenças zoonóticas como malária, febre amarela, vírus Zeka e dengue.
O aumento das temperaturas devido às mudanças climáticas também está criando condições mais favoráveis para a reprodução e disseminação dos mosquitos em novas áreas. Este estudo contribui para um crescente conjunto de evidências de que o desmatamento e a destruição de habitats representam riscos tanto para a vida selvagem quanto para a saúde humana.
Os pesquisadores concluem que estudos adicionais devem ser conduzidos para melhor compreender como o desmatamento está impactando as escolhas alimentares dos mosquitos e o potencial impacto disso na saúde pública.
Imagem principal: Um mosquito se alimenta de um hospedeiro humano. Foto de JJ Harrison via Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0).

